No Festival Internacional de Cinema do Panamá (IFF Panama), onde apresentou seu mais recente filme Rita e ministrou uma masterclass, o aclamado cineasta guatemalteco Jayro Bustamante conversou com a Variety sobre seus próximos projetos: Montanhas de Fogo (Cordillera de Fuego), que acaba de finalizar a pós-produção, e sua primeira comédia, uma adaptação do romance espanhol de 1998 Nada en la Nevera (algo como Nada na Geladeira). Bustamante, cujos filmes representaram a Guatemala três vezes na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar (Ixcanul, Temblores e La Llorona), é conhecido por usar o cinema para abordar temas delicados, como direitos indígenas, opressão sistêmica e direitos LGBTQ+.
Montanhas de Fogo começou como um projeto de conscientização social, mas Bustamante decidiu que teria mais impacto como um longa-metragem. Criado em uma comunidade maia às margens do Lago Atitlán, na Guatemala, o diretor traz na trama uma crítica contundente à negligência do governo com as populações indígenas. No filme, escrito por Bustamante, Luis Pineda e Margarita Kénefic, duas vulcanólogas (interpretadas por Maria Mercedes Coroy, de Ixcanul, e Tatiana Palomo) visitam comunidades indígenas para alertá-las sobre uma nova formação vulcânica na cordilheira. Durante a missão, elas descobrem a corrupção por trás do descaso do Estado com essas populações.
Bustamante lembra que, em 2019, três comunidades indígenas foram soterradas pela lava após uma erupção vulcânica. “Foi tratado como um fenômeno natural, mas mortes assim são uma catástrofe social”, afirmou. “Essas pessoas já haviam sido deslocadas para áreas de risco – é um caso claro de discriminação étnica, racial e social”, denunciou.
Para preparar o elenco, o diretor mobilizou sua Academia Ixcanul, escola de atores itinerante fundada em 2012, que já formou mais de 1.500 artistas na Guatemala. “Envolvemos duas comunidades indígenas, Cakchiquel e Tzutujil, e demos aulas de interpretação para famílias inteiras, de crianças a avós”, explicou sobre os quatro meses de pré-produção. A equipe também recebeu treinamento em dublês e técnicas de filmagem. O filme é produzido por sua produtora La Casa de Producción, em parceria com a francesa Les Films du Volcán e a Fundação Ixcanul – orgulhosamente 100% guatemalteco, sem financiamento estrangeiro. “Queremos provar que somos capazes de fazer cinema totalmente autônomo”, destacou.
Quanto à distribuição, Bustamante priorizará plataformas de streaming, já que apenas 9% da população guatemalteca tem acesso ao cinema. “Não é o ideal, mas se o celular é a ferramenta que fará as pessoas refletirem, deixo meu ego de cineasta de lado”, ponderou.
Enquanto isso, ele trabalha em seu primeiro projeto de comédia, adaptando Nada en la Nevera para um contexto latino-americano, possivelmente no México. A história original acompanha Carlota, uma motorista de ambulância obcecada por encontrar o amor perfeito – até cruzar com um homem intoxicado e acreditar que ele é sua alma gêmea. “O que me fascina é como a humanidade ainda não evoluiu em relações emocionais. Continuamos presos ao amor romântico e à ideia de posse”, refletiu. “Também queremos explorar o amor-próprio: como cultivá-lo sem que ele se torne um obstáculo para nos conectarmos? Não se trata de poliamor, mas de equilíbrio entre independência e a busca por alguém que nos ajude a nos entender”. E concluiu, rindo: “Como não tenho respostas sobre relacionamentos ideais, melhor rir um pouco da nossa loucura”.
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Este artigo foi inspirado no original disponível em variety.com