Estreando no Festival Internacional de Cinema do Panamá (IFF Panama), o documentário de longa-metragem “O Feiticeiro: Julio Zachrisson”, dirigido por Félix “Trillo” Guardia em sua estreia no formato, celebra o legado provocador do artista panamenho Julio Zachrisson. Produzido por Tomás Cortés, da Cine Animal, com apoio do Ministério da Cultura do Panamá, o filme combina animação, imagens de arquivo e entrevistas para narrar a jornada pessoal de Guardia, desencadeada por memórias de infância das obras perturbadoras e fascinantes de Zachrisson.
“A primeira vez que vi uma das gravuras de Zachrisson, achei a coisa mais feia já criada. Pendurada na sala elegante da minha avó, a obra destoava completamente do resto da coleção”, revela Guardia em seu depoimento. “Era uma cena gráfica de uma mulher defecando em um prato enquanto um cachorro faminto a observava. Eu tinha 12 anos e nunca esqueci o impacto que aquilo me causou.”
O documentário acompanha Guardia em sua busca pelo artista, do Panamá até Madri. A amizade que surgiu entre os dois, retratada no filme, convida o público a refletir sobre “memória, história, identidade e a arte como ponte entre gerações”, conforme descreve a sinopse. No teaser, uma frase do artista aparece em destaque: “A arte é inútil, mas não podemos viver sem ela”, acompanhada por um ritmo de clave. As imagens revelam seu trabalho repleto de formas humanas exageradas, expressionistas e surrealistas, cada uma contando uma história própria. Zachrisson relembra como era visto como um excêntrico em seu país natal, deixando o Panamá em 1953 para nunca mais voltar.
Zachrisson faleceu em dezembro de 2021, em sua casa em Madri. “Sua morte marcou um ponto de virada na produção do filme, nos levando a repensar a narrativa. Percebemos que o mais importante era homenagear sua vida e obra”, comenta Guardia.
“O Feiticeiro: Julio Zachrisson” integra um ambicioso projeto transmidiático, “O Legado Zachrisson”, que busca preservar e amplificar a influência do artista em diversas plataformas. A iniciativa inclui também “Toro Volandero”, primeiro longa-metragem animado do Panamá, inspirado no universo gráfico de Zachrisson, com lançamento previsto para 2026 e também dirigido por Guardia, além de exposições interativas em museus e um arquivo digital completo de suas obras.
O projeto reflete o crescente interesse pelo artista, que pouco teve relação com o cinema, exceto pelo curta “Zachrisson” (2016), de Abner Benaim (“Plaza Catedral”). “Quero que o público sinta o mesmo choque e fascínio que eu tive ao conhecer sua obra”, diz Guardia. “Quero que questionem suas próprias percepções e ousem enxergar além da superfície.”
—
Este artigo foi inspirado no original disponível em variety.com