Filme Iraniano “Mulher e Criança” Gera Polêmica; Diretor de “Semente da Figue Sagrada” Intervém

O filme "Mulher e Criança" do diretor iraniano Saeed Roustayee já está gerando controvérsia antes mesmo de sua estreia no Festival de Cannes.
Antes mesmo da estreia de “Mulher e Criança” no Festival de Cannes, o novo filme do diretor iraniano Saeed Roustayee já está gerando polêmica, revelando as tensões profundas que dividem a comunidade cinematográfica do Irão. A controvérsia em torno do longa, ainda não exibido, levou o cineasta Mohammad Rasoulof — que fugiu do Irão em maio de 2024 após ser condenado à prisão por seu filme “A Semente da Figueira Sagrada” — a sair em defesa de Roustayee. O debate acirrou-se quando a Associação de Cineastas Independentes do Irão (IIFMA) acusou Cannes de ceder às autoridades iranianas ao selecionar “Mulher e Criança”, alegando que o filme foi produzido com autorização do governo e, portanto, seria “propaganda”.
O longa é uma das duas produções iranianas na competição oficial de Cannes este ano, ao lado de “Foi Apenas um Acidente”, do aclamado diretor dissidente Jafar Panahi. Ainda não se sabe se os cineastas, que vivem no Irão, poderão comparecer ao festival. A IIFMA, liderada pelo produtor radicado em Dubai Kaveh Farnam, critica ainda o fato de as atrizes do filme — incluindo a protagonista Parinaz Izadyar — usarem o hijab obrigatório no país, um símbolo rejeitado por muitas mulheres iranianas em protesto. Para a associação, isso representa uma traição ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, surgido após a morte da jovem curda Mahsa Amini sob custódia policial em 2022.
“O mais importante após ‘Mulher, Vida, Liberdade’ é que as mulheres, especialmente as jovens, não usam mais o hijab islâmico”, disse Farnam à Variety. “Se um cineasta mostra pessoas obedecendo às regras absurdas do governo, está falsificando nossa realidade e traindo a luta das mulheres”, acrescentou. Em resumo, a IIFMA acusa Roustayee de colaborar com o regime e Cannes de ser cúmplice ao exibir um filme que consideram propaganda.
O Festival de Cannes não se manifestou sobre o caso. Por trás da polêmica, há nuances complexas. Em resposta às críticas, Mohammad Rasoulof destacou a diferença entre “filmes de propaganda do regime e obras feitas sob censura”. Ele criticou a pressão sobre cineastas que trabalham dentro do sistema: “Eles estão espremidos entre a censura e acusações de traição. Nem todos podem arriscar fazer cinema clandestino”.
Roustayee, por sua vez, defendeu “Mulher e Criança” como “um filme sobre uma mulher que enfrenta uma sociedade patriarcal”. Ele admitiu ter obtido permissão do governo, mas afirmou: “Foi a única forma de contar essa história. O filme é independente”. A produtora francesa Goodfellas, responsável pela distribuição, reforçou que a produção não recebeu apoio estatal e enfrentou obstáculos das autoridades iranianas durante as filmagens.
O produtor Mohammad Atebbai, que trabalhou com Roustayee no passado, comparou-o a Panahi e Rasoulof: “Todos retratam os problemas do povo iraniano. Uns optam pelo cinema clandestino, outros tentam furar a censura para alcançar o público local”.
Declarações dos cineastas:
Saeed Roustayee: “Meu filme mostra uma mulher desafiando o patriarcado. O hijab não é minha escolha, mas faz parte da nossa realidade. Fui perseguido por meu último filme, ‘Os Irmãos de Leila’, considerado um símbolo do movimento ‘Mulher, Vida, Liberdade’. Agora, me acusam de colaborar com o regime? Isso é absurdo.”
Mohammad Rasoulof: “Há uma linha clara entre propaganda e cinema sob censura. Não podemos exigir que todos façam filmes clandestinos. Muitos dependem do sistema para sobreviver. A luta pela liberdade deve incluir, não excluir.”
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Este artigo foi inspirado no original disponível em variety.com