Peço desculpas aos amigos e familiares que foram vítimas da minha incapacidade de calar a boca sobre Kingdom Come: Deliverance 2 nos últimos meses. Agora, com 74 horas de jogo, o final deve estar próximo, mas tenho levado com calma desde que cheguei a Kuttenberg e a densidade de missões triplicou. Resolver brigas entre gangues de mineradores, negociar a libertação de um nobre, caçar um assassino em série, ajudar um fantasma a organizar ossos—é um fluxo interminável de estranhos precisando dos serviços do Henry, e eu ainda me surpreendo com o quão divertidas, intrigantes e imprevisíveis essas tarefas podem ser.
As missões secundárias de KCD2 são longas e complexas, levando você a múltiplos locais, com diálogos extensos, testes de persuasão frequentes e escolhas constantes. Tantas. Escolhas. Não lembro a última vez que terminei uma missão sem um final alternativo. Assim como The Witcher 3 ou os melhores jogos da série The Elder Scrolls, KCD2 entende a emoção de controlar um personagem que pode sacar a espada a qualquer momento, mas muitas vezes não precisa. A maioria dos problemas pode ser resolvida com lábia afiada, uma facada nas costas no momento certo ou um pouco mais de esforço.
Consigo pensar em uma dúzia de missões que merecem um artigo inteiro de elogios, mas recentemente completei uma que demonstra a maestria da Warhorse: alta tensão, mistério, ação e um toque de tragédia. Deixa eu contar sobre A Pedra do Trovão (Aviso: spoilers de uma missão incrível).
Tudo começou com uma dica do estalajadeiro de Grund, uma cidade mineira a meio dia de viagem de Kuttenberg. A pista me levou até Kona, uma moradora local que implorou ao Henry por uma Pedra do Trovão, um amuleto raro que dá sorte a quem o carrega. Um sujeito em uma vila vizinha tinha uma, mas só a entregaria a quem o derrotasse em uma luta. Minha primeira reação foi: “Ótimo, vou pegar essa pedra pra mim!”—até Kona explicar que precisava dela porque estava desesperada para que sua próxima gravidez desse certo. Ela já havia sofrido dois abortos que quase a mataram e esperava que a pedra a salvasse. Como essa foi a coisa mais triste que eu (e o Henry) já ouvimos, virou minha missão pessoal conseguir aquela maldita pedra para ela.
Thomlin tem a pedra!
Em um RPG medíocre, a missão me apontaria direto para Thomlin, o cara com a Pedra do Trovão, e me mandaria vencê-lo no soco. Mas o único objetivo era “Conseguir a Pedra do Trovão”, e a luta era só uma opção. Cheguei a considerar pular a briga, vestir minha rouba furtiva nova e roubar a pedra da casa dele enquanto ele dormia.
Resolvi conversar primeiro para ver se não dava pra comprá-la. Não só Thomlin recusou a venda como também não queria lutar—ele “ficava com pena” de sempre vencer fácil. Isso só deixou sua cara mais socável, e depois de alguns testes de persuasão, ele topou uma última luta se eu apostasse 500 groschen.
Foi patético. Thomlin até bloqueou e esquivou algumas vezes, mas desistiu depois de dois socos no queixo. Exigi meu prêmio… e o canalha admitiu que a pedra havia sido roubada dele semanas antes. Ele me devolveu o dinheiro e apontou os suspeitos: dois trabalhadores rurais em outra vila. Fiquei me perguntando: e se eu tivesse revirado a casa dele? Será que o Henry teria descoberto a mentira e pulado a luta?
Afinal, os trabalhadores têm a pedra!
Fui até Raborsch, no oeste de Kuttenberg, e encontrei Peter, um dos ladrões, arando um campo. Ele confessou na hora que roubou a pedra com seu amigo Hensel, mas deu uma justificativa até nobre: um bando de mercenários estava aterrorizando a vila há meses, e o nobre local não fazia nada. Eles decidiram agir, mas, como não eram soldados, esperavam que a sorte da Pedra do Trovão os ajudasse. No fim, Peter escapou por pouco—e Hensel, que estava com a pedra, foi capturado pelo líder dos bandidos, Andrew Cabeça-de-Carneiro.
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Este artigo foi inspirado no original disponível em pcgamer.com.