Marcelo Gomes lança série na TV para combater epidemia de HIV no Brasil com ‘Máscaras de Oxigênio Não Cairão Sópor Acaso’

Três décadas after a estreia de sua carreira, o renomado diretor brasileiro Marcelo Gomes, conhecido por obras como “Cinema, Aspirins and Vultures”, finalmente está ingressando no mundo da televisão com a série da HBO/Max, “Oxygen Masks Will (Not) Drop Automatically”. Esta drama de cinco episódios, baseada na verdadeira história de um grupo de comissárias de bordo brasileiras que montaram um esquema para contrabandear tratamentos para HIV dos EUA na década de 1980, fará sua estreia no Berlinale Series Market Selects deste ano. Ambientada no Rio de Janeiro no final dos anos 80, “Oxygen Masks Will (not) Drop Automatically” estrela Johnny Massaro (“Hidden Truths”) como Nando, um comissário de bordo gay que, após ser diagnosticado com HIV no auge da epidemia, começa a contrabandear o tratamento revolucionário AZT para seu país, apesar de o medicamento ainda não ter sido aprovado pelas autoridades de saúde locais. Bruna Linzmeyer, que esteve em Berlim no ano passado com Juliana Rojas em “Cidade’ Campo”, co-estrela como Léa, a melhor amiga de Nando, lidando não apenas com o diagnóstico do amigo, mas também com uma gravidez inesperada resultante de um affair com um homem casado.

Em uma conversa com a Variety antes do Berlinale, Gomes menciona que já havia sido convidado para dirigir várias outras séries antes, mas elas “não estavam alinhadas” com seus interesses. Quando o diretor leu o roteiro de “Oxygen Masks Will (Not) Drop Automatically” pela primeira vez, ele imediatamente soube que precisava se juntar ao projeto. “Essa é uma história ambientada no Brasil em um momento em que estávamos saindo de uma ditadura brutal e prontos para ser felizes novamente, para desfrutar da liberdade e estar juntos novamente,” ele acrescenta. “Então, essa epidemia chega, com um elemento sexual muito forte, e os conservadores a rejeitaram terrivelmente no Brasil. Havia um estigma terrível associado a ela, e acho que é importante contar essa história para o Brasil e o mundo, porque, de vez em quando, ao longo da história, somos confrontados com ondas de conservadorismo que destruem a conexão humana.”

Gomes acredita que é importante notar como “a nova geração não tem ideia do que foi a epidemia de HIV” e só tem uma compreensão de sua dimensão através de filmes e televisão, mas “não consegue entender o que foi passar por isso na época”. “Conheci muitas pessoas que morreram de HIV, então foi muito emocionante para mim lembrar daquela época. Também queríamos refletir sobre o nível de preconceito que o Brasil experimentou na década de 80 e pensar sobre como tivemos um governo que recentemente promoveu essa forma de pensar novamente.” “É de grande importância apresentar uma série como a nossa em um momento como o que estamos passando politicamente no mundo,” Gomes enfatiza. “Alguns dias, parece que estamos de volta à Idade Média, como se todo o progresso que fizemos nas últimas cinco décadas não tivesse acontecido. É tão, tão importante mostrar como a solidariedade é fundamental para conquistar direitos para as minorias, porque essa luta está longe de terminar.”

Essa sensação é ecoada por Massaro, que diz à Variety que a série “não é apenas um lembrete do que a epidemia de HIV foi, mas um alerta: a luta não terminou ainda, como é evidente nas recentes eleições nos EUA. A importância de um trabalho como o nosso é enorme, porque, sem ele, não estaríamos tendo essa conversa sobre HIV.” Massaro afirma que foi atraído para o projeto devido à sua admiração por Gomes e, em seguida, pela qualidade dos roteiros. “O potencial de uma história para me emocionar — e o potencial de ser o veículo para essa emoção — é fundamental para escolher qualquer papel,” ele destaca. O mesmo se aplica a Linzmeyer, que acredita que “a ficção tem um belo potencial para conexão emocional com o público” e que essa série “nos permite entender as questões sociopolíticas enfrentadas por uma comunidade ainda marginalizada hoje.”

Gomes elogia a parceria com a HBO/Max no Brasil, acrescentando que tiveram uma “ótima parceria”. “Eles estavam super abertos a nossas ideias, desde as cenas de sexo que sentimos serem fundamentais — não podíamos ser pudicos ao falar sobre os primeiros dias do HIV — até como escolhemos o elenco e a forma como decidimos filmar, com diferentes texturas e técnicas. Foi uma parceria incrivelmente respeitosa e nutriente, e fiquei muito feliz ao longo do processo.” A estética da série mistura digital, Super 8 e 16mm para recriar a sensação dos anos 80, com grande atenção também ao design de produção e supervisão musical. “Trabalhamos com câmeras VHS usadas nos anos 80, o que gera uma certa confusão sobre se usamos ou não imagens de arquivo na série. Não usamos. Filmamos tudo nós mesmos, o que acho que traz grande veracidade para a história,” Gomes observa, acrescentando que a equipe também se esforçou para recriar os interiores dos aviões e os uniformes dos comissários de bordo dos anos 80.

O produtor associado Ernesto Soto diz que “é incrivelmente emocionante para nós estarmos em um festival do tamanho de Berlim com uma série que é profundamente brasileira, mas também universal,” reiterando o desejo da equipe de “ver a história viajar internacionalmente.” “Devido à forma como financiamos o projeto, também temos os direitos para vendê-lo a territórios internacionais fora da América Latina. Seria ótimo ver isso sendo exibido em emissoras por toda a Europa e o resto do mundo,” ele acrescenta. A notícia de que a série foi selecionada para ser exibida em Berlim veio em um momento em que Massaro estava “cheio de dúvidas” e se sentia como se “um empurrão muito bem-vindo para continuar acreditando que as coisas acontecem no momento certo.” “Sei como o Berlinale é uma vitrine para o mundo. Espero que as pessoas que vivem com HIV se sintam abraçadas e que as que não vivem com a doença possam desenvolver empatia e expandir sua compreensão do que significa viver com o vírus nos dias de hoje.” “Oxygen Masks Will (Not) Drop Automatically” é uma co-produção entre Morena Filmes (Mariza Leão, Tiago Rezende e Thiago Pimentel) e HBO/Warner. A data de lançamento ainda não foi anunciada.

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