Liz Garbus Revê Assassinatos de Long Island com Foco nas Vítimas

ALERTA DE SPOILER: Este texto contém detalhes sobre o caso dos assassinatos de Gilgo Beach e a série documental Gone Girls: O Serial Killer de Long Island, disponível na Netflix.

Liz Garbus lembra exatamente onde estava no dia em que soube da morte de Mari Gilbert. Em 2016, a documentarista indicada ao Oscar estava jantando com amigos jornalistas quando recebeu uma mensagem do escritor Robert Kolker: Mari havia sido assassinada pela própria filha, Sarra, durante um surto psicótico. Na época, Garbus adaptava o livro Lost Girls, de Kolker, para o cinema e conhecera Mari um ano antes. Aquela mãe incansável e ativista deixara uma marca profunda — e era peça central na história que Garbus contaria sobre um serial killer ainda não capturado em Long Island, Nova York.

“A mesa parou quando comentei o ocorrido. Todos começaram a discutir as ramificações do caso”, diz Garbus à Variety. Mas o que os impressionou não foi apenas a morte trágica de Mari, e sim a cadeia de eventos desencadeada pelo desaparecimento de sua filha mais velha, Shannan, em 2010. Na época, Shannan trabalhava como acompanhante e sumiu após encontrar um homem perto de Gilgo Beach. As autoridades ignoraram o caso — até que a insistência de Mari forçou uma investigação. A busca não encontrou Shannan, mas revelou quase uma dúzia de corpos em decomposição espalhados pela região.

As primeiras vítimas identificadas — Megan Waterman, Melissa Barthelemy, Amber Costello e Maureen Brainard-Barnes — tornaram-se o rosto do caso, conhecido como os assassinatos de Gilgo Beach. A comoção diante dessas reviravoltas, como a vivida pelos amigos de Garbus no jantar, foi retratada em seu filme Lost Girls (2020), focado na luta de Mari para encontrar a filha (cujos restos foram descobertos em dezembro de 2011).

Após o lançamento discreto do filme na Netflix — em março de 2020, no início da pandemia —, Garbus manteve contato com as famílias das vítimas. Em 2023, as mensagens se multiplicaram: finalmente, havia um suspeito preso. “Foi uma sensação diferente daquela mensagem sobre Mari, mas senti que precisava fechar esse ciclo”, diz Garbus. “Havia tantas perguntas sem resposta. Eu estava profundamente envolvida nesse caso.”

O acusado era Rex Heuermann, um arquiteto que trabalhava em Manhattan (onde muitas de suas alegadas vítimas atuavam como acompanhantes) e morava em Long Island. Sua descrição física e até mesmo a de seu carro incomum haviam sido fornecidas à polícia anos antes, mas só foram investigadas em 2023, quando uma nova equipe da polícia de Suffolk reabriu o caso. Em menos de seis semanas, Heuermann foi identificado — algo que a investigação anterior não conseguira em 12 anos.

Enquanto Lost Girls focava na busca de Mari por Shannan, Garbus sentiu a responsabilidade de contar a história de todas as vítimas, de seus familiares e da investigação desastrosa. Não se tratava apenas de incompetência policial: havia corrupção nos altos escalões, posteriormente exposta. “Era quase shakespeariano”, diz Garbus, referindo-se à queda do chefe de polícia Jimmy Burke.

Essa nova abordagem resultou na série Gone Girls, agora na Netflix. Os três episódios começam com a noite em que Shannan desapareceu, mas logo mudam o foco para a rede de apoio formada por mães, irmãs e amigos das vítimas, que lutaram por justiça enquanto a imprensa e a polícia ignoravam os crimes devido à profissão das mulheres.

Garbus destaca uma cena emocionante no final do terceiro episódio, em que Missy, irmã de Brainard-Barnes, diz a Liliana, filha de Waterman: “Você se parece com ela”. “Ela nunca conheceu Megan, mas falou como se a conhecesse”, observa Garbus. “Isso mostra o laço entre essas mulheres.”

O documentário também inclui depoimentos inéditos, como o de Sarah Karnes, amiga de Brainard-Barnes, que detalha os protocolos de segurança que as acompanhantes usavam para se proteger. “Elas tinham códigos, mensagens e até batiam na porta depois de uma hora para assustar clientes agressivos”, diz Garbus. “A culpa das sobreviventes é real. Sarah ainda sofre por ter voltado para casa naquela noite.”

Heuermann aparece apenas no último episódio, uma escolha deliberada. “Serial killers são a parte menos interessante dessas histórias”, afirma Garbus, citando Michelle McNamara. “O que importa são as vidas destruídas e a luta por justiça.”

Curiosamente, Amy Ryan, que interpretou Mari em Lost Girls, conhecia Heuermann. “Ele era arquiteto no prédio dela”, revela Garbus. “Ela me ligou e disse: ‘Liz, ele esteve na minha casa’.”

Apesar do impacto do caso, Garbus evitou detalhar a morte de Mari na série. “Não era parte da história de Gilgo”, explica. “Shannan não é considerada vítima de Heuermann.”

Em um mercado saturado de true crime, Garbus prioriza qualidade. Sua produtora, Story Syndicate, já lançou documentários aclamados como Last Call (HBO) e Stolen Youth (Hulu). “O gosto do público está mais conservador, mas ainda há espaço para histórias extraordinárias”, diz.

E se a Netflix quiser uma continuação após o julgamento de Heuermann? “Depende do que for revelado”, responde Garbus. “Se houver algo socialmente relevante, talvez valha a pena.”

Até lá, ela segue ao lado das famílias. “Quero estar no julgamento, apoiando e ajudando a interpretar o caso para a imprensa. Essas pessoas significam muito para mim.”

Este artigo foi inspirado no original disponível em variety.com

Deixe um comentário