Este ano marca o 80º aniversário da libertação dos campos de concentração nazistas e também o 40º aniversário do lançamento do filme revolucionário “Shoah”, de Claude Lanzmann, que redefiniu a forma como o Holocausto é visto. Na segunda-feira, o documentário “All I Had Was Nothingness”, que explora a criação de “Shoah”, estreia no Festival de Berlim. A Variety conversou com o diretor, Guillaume Ribot.
“All I Had Was Nothingness” é baseado na memória de Lanzmann, “The Patagonian Hare” – que, lida por Ribot himself, fornece a narração do filme – e utiliza imagens de 220 horas de cenas deletadas de “Shoah”. A memória deu a Ribot “a possibilidade de ver o fluxo de pensamentos de [Lanzmann] e os ingredientes que ele precisava para criar tal obra-prima, que é sua determinação e coragem”, ele diz.
O desafio para Lanzmann, explica Ribot, foi que a maioria dos campos havia sido destruída. “Não há nada lá, apenas ruínas e arame farpado”, diz Ribot, acrescentando que não é possível entender o que aconteceu nos campos apenas visitando os locais onde eles estavam. No início de “All I Had Was Nothingness”, Lanzmann é ouvido dizendo, “Eu queria filmar, mas tudo o que eu tinha era o vazio”. Ele é apresentado como um detetive, incerto de como resolver o caso.
Para montar as evidências, Lanzmann decide rastrear sobreviventes, perpetradores e testemunhas, e tentar entrevistá-los – uma tarefa nada fácil, given o trauma infligido aos sobreviventes e a determinação sombria dos assassinos em evadir a justiça. Um aspecto notável do filme é como Lanzmann buscou evocar as memórias dos testemunhas, fazendo com que elas reencenassem eventos passados, como o barbeiro, Abraham Bomba, que foi forçado a cortar o cabelo das mulheres antes de elas entrarem nas câmaras de gás, ou o motorneiro que transportou os judeus para os campos.
No coração do filme está a revelação de que Lanzmann, enquanto viajava pelo mundo durante cinco anos tentando montar as evidências, foi consumido por dúvidas, incerto se o que ele estava fazendo teria algum valor, um sentimento que às vezes se aproximou do desespero. O filme termina com uma espécie de desfecho quando Lanzmann encontra um sobrevivente do Levante do Gueto de Varsóvia, e ele é capaz de explicar o que ele alcançou: ele foi capaz de acompanhar as vítimas enquanto elas se aproximavam de suas mortes, para que elas não morressem sozinhas.